“A adaptação ao grupo e à linguagem simbólica supõe as mesmas etapas, percorridas na mesma ordem, que a adaptação egocêntrica ao mundo exterior. Refletir em ações, em imagens, em palavras ou em noções apresenta as mesmas dificuldades lógicas. Todo pensamento oscila entre a adaptação do eu ao real e do real ao eu; toda ação ou toda manifestação de opinião consecutiva a um pensamento supõe a aquisição e a posse de um certo número de esquemas, motores ou representativos, que são adquiridos segundo um processo análogo. De onde resultam as afinidades profundas, e tão mal conhecidas, dos diversos procedimentos de expressão: palavra, desenho, ritmos, gestos. De onde resulta também a explicação do fato de que o homem, eterno aprendiz, tanto quanto a sociedade humana, ofereça, freqüentemente, o espetáculo de um retorno paradoxal a formas sumárias de expressão que são tomadas, indevidamente, por retornos ou regressões e que são, ao contrário, a prova de um acesso a formas originais de pensamento e de expressão”. (Francastel em “Espace génétique et espace plastique”, pp. 357-8)
As formas originais de pensamento e de expressão das quais Francastel trata na sua fala acima, foram retiradas do pensamento de Piaget. Jean Piaget discute sobre o espaço euclidiano e o espaço topológico. O espaço euclidiano é aquele dos objetos bem delineados. Já, o espaço topológico é a forma original de pensamento e expressão, construído de modo sensitivo-motor na infância, onde a imagem visual se constrói a partir de “correspondências qualitativas bicontínuas que recorrem aos conceitos de vizinhança e a de separação, de envolvimento e de ordem, etc., mas ignoram qualquer conservação das distâncias, assim como toda projetividade.” (PIAGET, 1948)
Para Francastel, o homem, constantemente, retorna ao espaço topológico para expressar de forma mais precisa estados e qualidades que ainda não são identificados pela memória como objetos. De tal forma, ao sentirmos uma sensação de inexplicabilidade de um estado qualquer, a situação indizível não vem das múltiplas e subjetivas interpretações, mas sim do fato de que aquele estado é tão preciso que só pode ser dito por ele mesmo.
Um exemplo desse retorno ao espaço topológico, segundo Pierre Francastel, é o Ballet Mécanique (1923), produção vanguardista de Léger (cinegrafista) e George Antheil (compositor) feita para o vídeo ser visto com a música tocada ao vivo (originalmente: 16 pianolas, 2 pianos, 3 xilofones, 7 sinos elétricos, 3 turbinas, uma sirene, 4 baterias e um tom-tom)
Lubambo.
Tags: Antheil, francastel, Léger, música visual, piaget, topologia
19/12/2009 às 11:19 am |
Gostei muito dessa postagem sobre visual music! Só fiquei em dúvida se a música foi composta para o vídeo ou o contrário, ou nenhum dos dois. Porque eu tenho a impressão de que hoje em dia a imagem é produzida depois, mas também não tenho certeza disso.
Essa música é mesmo muito vanguarda! É por isso o francastel acreditava no espaço topológico.
19/12/2009 às 4:20 pm |
Zé, pelo que eu observei a música e o vídeo foram feitos “ao mesmo tempo”, pois desde o início a composição do Ballet Mecanique foi um projeto do cineastra junto com o compositor.
bjo!
continue com suas palavras por aqui.
20/12/2009 às 6:18 pm |
Que postagem linda! Não posso deixar de parabenizar a minha parceira! haha
Achei que foi tão aplicada a relação entre tudo. Perfeito encaixe. O texto, eu li 6 vezes e ainda me pego relendo ás vezes pra constatar a apreensão. Essa era uma reflexão constante minha sobre adaptação-objetivação. Nossa! Simplesmente fantástico! E ainda completa com um vídeo maravilhoso, acrescentado pós-texto e que faz toda diferença por causa disso. O primeiro vídeo apresentado aqui pós-texto. Geralmente não gosto de direcionamento de percepção sobre o vídeo, mas acho que isso acabou por potencializá-la!
Parabéns, Lubambo!
21/12/2009 às 8:44 am |
fiquei bem em dúvida na hora de decidir Se “pós-texto”.
Aguardem a postagem sobre Vídeo- retrato!
temos que ler mais Francastel… é bastante bom.